João 1:1 prova que Cristo é Deus?
- Refutando a Trindade
- 29 de fev. de 2016
- 5 min de leitura
No idioma grego, onde este verso foi originalmente escrito, encontramos o texto assim: “No princípio era o verbo (ho logos) , e o verbo (ho logos) estava com o deus (ho theos), e deus (theos) era o verbo (ho logos).
Notem que antes da primeira ocorrência da palavra “Deus” (theos em grego) nós encontramos o artigo definido “o” (ho em grego.) Mas nós não encontramos esse artigo antes da segunda ocorrência da palavra “Deus” na frase “e deus era o verbo”.
Porque que o apóstolo João escreveu dessa maneira? Qual é o significado dessa diferença de escrita para o nosso entendimento hoje?
O que dizem os eruditos
A frase “e o verbo era Deus” (já traduzido para o português) tem duas construções. Na primeira identificamos o sujeito, que no caso é o “Verbo” (Jesus). Na segunda construção, temos o predicado “era Deus”. O substantivo “Deus” não é precedido pelo artigo “o” nesta frase, e isso é denominado de substantivo anartro (sem artigo). E isso faz uma grande diferença no idioma grego.
Fritz Rienercker & Cleon Rogers, eruditos trinitários, explicam ¹: “A palavra está sem o artigo e é o predicado que enfatiza a qualidade: ‘o Verbo tinha a mesma natureza de Deus‘”.
O Dr. W. Barclay comenta sobre João 1.1 com estas palavras²: “É difícil entendermos essa afirmação, e ela é difícil porque o grego, língua na qual João escreveu, tinha uma maneira diferente de dizer as coisas.[…] Quando o grego usa um substantivo quase sempre é com o artigo definido ho [“o”]. Quando o grego se refere a Deus ele não diz simplesmente theos [“deus”]; ele diz ho theos [“o deus”]. Então quando o grego não usa o artigo definido junto com um substantivo, o substantivo se torna mais um adjetivo. João não queria dizer que a palavra era ho theos [“o Deus”]; como se dissesse que a palavra fosse idêntica a Deus. Ele disse que a palavra era theos – sem o artigo definido – o que significa que a palavra tinha, por assim dizer, exatamente a mesma característica e qualidade e essência e maneira de ser de Deus. Quando João disse a palavra era Deus ele não estava dizendo que Jesus era idêntico a Deus.[…] Nesse caso é melhor entendermos com o significado de que Jesus é divino. Vê-lo é o mesmo que ver o que Deus é.”
O Rev. Dr. Waldyr Carvalho Luz comenta esse texto nos seguintes termos³: “Da própria fraseologia se verá que o substantivo anartro não tem acepção quantitativa, a individualizar, mas, ao contrário, qualitativa, a qualificar, exatamente o oposto do termo articulado. Logo, θεός (Deus) é o predicativo, ὁ λόγος (O Verbo) o sujeito; – Destarte, o predicativo θεός (Deus) não está a destacar a pessoa do λόγος (O verbo) mas a expressar-lhe a natureza. Em outras palavras, θεός (Deus) não está individualizando ὁ λόγος (O Verbo), dizendo-o UM DEUS, mas indicando-lhe a essência divinal, qualificando-o como DIVINO; – Nesta modalidade, o elemento anartro é o predicativo, o articulado o sujeito, aquele a especificar a natureza deste.” Grifei entre parêntesis.
Conseguiram entender o ponto? João estava afirmando que Jesus tinha natureza divina igual a do Pai, apenas isto. João não queria dizer que O Verbo (Jesus) era o mesmo Deus com quem ele estava, no caso O Pai Jeová, pelo contrário.
João estava fazendo uma distinção entre O Deus (Jeová) e Jesus (que era uma pessoa divina que estava junto com O Deus). Assim também entende o trinitário Dr. F. F. Bruce comentando Jo. 1.1: “A estrutura da terceira cláusula no verso 1, theos en ho logos, exige a tradução ‘O Verbo era Deus’. Desde que logos tem um artigo diante dele, é marcado como sujeito. O fato de theos ser a primeira palavra depois da conjunção kai (e) mostra que a ênfase principal da cláusula está sob ele. Se theos tivesse assim como logos precedido de artigo o significado seria que o Verbo seria completamente idêntico a Deus, o que é impossível se o Verbo também estava ‘com Deus’”. (Apud F. F. Bruce, The Gospel of John, (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1983), p. 31)
Sim amigos, ter natureza divina não é ser Deus. Ter natureza divina significa apenas ter um corpo espiritual, da mesma forma que ter natureza humana implica em ter um corpo de carne e osso.
Todos os seres que habitam no céu tem essa natureza divina. Jeová, o Pai é espírito. (João 4:24) Jesus, o Filho, é espírito. (1 Pedro 3:18) Os anjos são espíritos ( Hebreus 1:7)
E em 2 Pedro 1:4 e 1 Cor 15:50-54 (e outros textos também), afirmam que os humanos que irão pro céu vão ter a mesma natureza que Jesus ou serão semelhantes à ele. Então Jesus, anjos e os salvos que vão pro céu podem ter a natureza de Deus (corpo espiritual) sem precisar ser Deus, O Pai (o único Deus Todo Poderoso).
Com o entendimento destas normais gramaticais gregas, muitas traduções acertam ao traduzirem estes versos, como por exemplo:
1928: “e a Palavra era um ser divino.” La Bible du Centenaire, L’Evangile selon Jean, de Maurice Goguel
1946: “e a Palavra era de espécie divina.” Das Neue Testament, de Ludwig Thimme.
1978: “e da sorte semelhante a Deus era o Logos.” Das Evangelium nach Johannes, de Johannes Schneider.
Quando um substantivo está sem o artigo definido ( substantivo anartro), a construção em grego, dependendo do contexto, pode ter um artigo indefinido. Por exemplo, em Marcos 6:49, quando os discípulos viram Jesus andar sobre a água, a versão Almeida, atualizada (ALA), diz: “Pensaram tratar-se de um fantasma.”
No grego coiné não existe “um” antes de fantasma. Mas, quase todas as traduções em outras línguas acrescentam “um” para que a tradução se ajuste ao contexto. É por isso que outras traduções vertem a parte final de João 1:1 como dizendo “e o verbo era um Deus”, dentre elas algumas:
1864: “e um deus era a palavra.” The Emphatic Diaglott, versão interlinear, de Benjamin Wilson.
1808: “e a palavra era um deus.” The New Testament in an Improved Version, Upon the Basis of Archbishop Newcome’s New Translation: With a Corrected Text.
1950: “e a Palavra era [um] deus.” Tradução do Novo Mundo das Escrituras Gregas Cristãs.
Dizer que a palavra era “um deus” ou que era de “espécie divina” é a mesma coisa. É apenas no sentido de identificar a natureza de Jesus. Ele era uma pessoa divina ou um deus, mas não o mesmo Deus com quem ele estava.
Vimos assim então que usar o texto de João 1:1 pra querer provar a trindade é um erro, pois este texto, em vez de prova, refuta a doutrina da trindade.
Fontes desse artigo:
Rienecker, Fritz & Rogers, Cleon in Chave Linguística do Novo Testamento Grego – Vida Nova, pág. 161
Apud. Baclay, William in The Gospel of John, Revised Edition (1975), pp. 39, 74.
Carvalho, Waldyr Luz in Manual de Língua Grega, Vol. 1 – Casa Editora Presbiteriana – 1991, pág. 499
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